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21/04/2004 07:05
Teatro gratuito na lua
A lua deve ser um lugar bem propício para morar. Cresci lunático e meu chão parece não ter gravidade. "Fica aí na Dido, não garra não pra você ver!" É muito engraçado ouvir meu primo falando assim. Isso significa que tenho que parar de ouvir Dido o dia inteiro e trabalhar mais. Fico rindo até agora só de lembrar disso. Eu viajo demais na maionese, mas é tão bom! Não preciso nem me drogar para conseguir tal façanha. Suspeito que quando era pequeno, bati a cabeça no chão e desde então nunca mais fui o mesmo. Para se ter uma noção, meu pai pegou-me aos três anos de idade brigando com um menino invisível no mini-jardim lá de casa. Ele presenciou o suposto garoto me empurrando. Na verdade não viu ninguém, apenas me viu caindo do nada e pedindo para escorraçar o moleque de lá.
Aos seis anos, aprendi a fazer um chá com meu amigo André, o mais velho da turma, o desbravador da zona. O principal componente desse chá era ácido úrico, ou seja, urina mesmo. A nossa primeira e única cliente, foi a Tatiana, mais ou menos da nossa idade. Quem disse que criança é sempre pura. Só se for pura maldade. Tenho vergonha de falar essas coisas, mas confesso que já fui até carrasco mirim. Tive a capacidade de fazer uma menininha comer o côcô do cavalo que puxava a carroça do seu João, o leiteiro. Parece humor negro, mas já chorei amargamente e não há nada que me faça apagar aquela imagem da cabeça. Acho que encorporei Adolf Hitler e confundi a garotinha com uma judia e judiei dela. Aquele bastardo podia ser qualquer um, menos eu, não admito isso, simplesmente não admito!!!
Espero que já tenha pago todos os meus pecados, pois ninguém merece tanta crueldade. Já pensei até em virar padre por arrependimento, mas o problema é que batina nenhuma suportaria uma mente tão impura. Vou me redimir dessa vez. Prometo que vou me esforçar para ser um cara menos mau. Sei lá, vou ser o mauricinho de alma metaleira que sempre fui, vou tentar não ser tão crítico com as aberrações que encontro pela frente (tá vendo?!! Já estou criticando). Vou tentar falar menos um pouquinho. Eu falo demais. Essa pessoa não sou eu, essa pessoa não é ninguém. É tudo apenas um teatro gratuito, vai ter que ser de cunho beneficente, pois se não for, provavelmente veremos mais assentos vagos do que bundas amassadas. Talvez por ser gratuito, alguém teria a coragem de tirar alguns minutos de sua vida para comparecer à essa peça. Só não sei se vão conseguir transporte para chegar lá, pois o teatro é lá em casa, lá na lua, no meu habitat comum, talvez de onde jamais deveria ter tirado os pés.
05/03/04 - sexta.
Teatro gratuito na lua
eliblog@ig.com.br
enviada por Elisandro Borges
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