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21/04/2004 07:39
Me falaram de gente grande


Me falaram há muitos anos, que quando eu fosse gente grande, eu teria que me virar sozinho e não iria ter meus pais para o resto da vida. Me disseram também que o mundo lá fora não passa a mão na cabeça de ninguém. Engraçado, tenho a leve impressão de que já cheguei à essa fase de gente grande. Percebo agora na pele, a realidade da qual estavam tentando me ensinar décadas atrás. É verdade, é tudo verdade. Não estavam tentando me assustar. Tudo aquilo me parecia uma estorinha de bicho-papão só pra dar um pouco de bons modos a moleques mal-criados. Bom, como eu achava que era um menino comportado e criado sob uma razoável instrução, cheguei a pensar que eu era infalível e gostava de amarrar uma toalha no pescoço e fingir que era o super homem. De super homem eu não tinha nada. Na verdade eu tinha a inocência que o mundo hoje finalmente conseguiu me roubar .

Me ensinaram a conversar com Deus, a rezar o Pai Nosso, alguns quiseram me impor uma religião, outros me contaram que Deus não importa se você tem ou não uma religião, mas que bastava fazer o bem e ter fé sempre, independente de quaisquer circunstâncias. O mundo me confundiu a cabeça em várias ocasiões. Conheci pessoas boas que faziam coisas más e vice-versa. Me deram regras para respeitar, padrões para seguir e muitos conselhos… tentaram pensar por mim, resolver problemas em meu lugar, mas nada iria adiantar quando chegasse a hora de ter que fazer a comida com minhas próprias mãos – no lado mais suave da coisa. Era muito cômodo receber a papinha que a mamãe preparava com tanto carinho. O moleque cresceu, e o máximo que conseguia fazer, era pedir dinheiro pra comprar um big mac no shopping e é claro, bancar os caprichos da gata. À noite, era só ligar, que o papai buscava. Pegar ônibus? Pra quê? Não era pra isso que a gente tinha os nossos pais? Pra nos proteger do mundo e tampar os nossos olhos da miséria afora?

Talvez tenham protegido demais suas crianças. Hoje, adultos, alguns ainda confusos e inseguros, extraviaram o senso de luta que na verdade nunca adquiriram. Depois, mais tarde, a probabilidade de toparmos com a lei da sobrevivência pode ser eminente. Para poucos afortunados, esse senso não se faz necessário e o mesmo vaga distante de suas moradas. Já para outros, acabam engolindo sapo a seco na voracidade do tempo e engasgando com espinhas de bagre. O amor de nossos pais geralmente não costuma ter aquele coração comedido. Por vezes, como antes mencionado, até chega a ser superprotetor, o que não é saudável. Existe um universo inteiro urgindo lá fora e é como gritaram em nosso ouvido: “Cái no mundo!” Não dá pra ficar que nem avestruz com a cabeça enfiada no chão. Não é apropriado perder a chave no escuro e ficar tentando achá-la na base do tato. Enxergar é preciso. Continuam gritando e berrando… “não é escondendo a cara do mundo que vamos evitar as porradas” – disse o vizinho. Quem tem medo de apanhar nunca sobe no “ringue”. Gente grande é assim. Meio que dá a cara ao tapa, ignora a dor e paga pra ver. Eu quero ser gente grande também. Não precisa ser necessariamente pelo dinheiro, mas se Deus quiser – e torço pra que Ele queira – que seja ao menos pelo caráter.

23/01/03.
Me falaram de gente grande.
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enviada por Elisandro Borges






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