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24/04/2004 12:29
As mendigas do amor
(a pedidos)



Praticamente rastejando-se ao chão em meio a desarranjos de um fora implacável, ela consegue se levantar depois de uma sessão de palavras descartáveis. Descartável mesmo era o trapo humano pelo qual Aninha arrastava a bunda. Ninguém entendia tamanho sofrimento por tão pouca razão. Padecer em doses homeopáticas por esse amor era sua maior aflição e não havia nada mais incontestável que uma característica particularmente inconfundível da mocinha que calçava seu tênis rosa-choque recém saído da vitrine só pra combinar com sua bolcinha de penélope. Quem? Aninha? Não, vai fazer 23 anos em agosto, não me lembro o dia, só sei que já é bem grandinha. Não é bem assim também. Maturidade não se comemora à cada data de aniversário que exibimos ou escondemos, e diga-se de passagem, ela não é nem um pouco imatura. Mas me fala uma coisa... quem é que se habilita em julgar esse tão famigerado sentimento que chamamos de amor? A Aninha é só mais um caso em um milhão.

Quando amanheceu o dia, ela estava completamente arrasada com a má digestão da intempérie do dia anterior. O Sérgio pintou, bordou e como não bastasse, escorraçou a coitada de casa – eu quis dizer da casa do galo de briga, não da penélope abatida. É... esse é o preço de uma aposta errada, embora não exista um regra irrefutável para esse tipo de coisa ou um lugar padrão que lhe garanta um amor enterno, fiel, nobre e incondicional – que lindo! Incondicional é demais, não é?!! Já vi gente criando saci lá perto de casa, sabia? Impressionante o amor incondicional que eles trocavam entre si. Isso é verdade. Você pode pensar que é uma verdade mentirosa, ou uma mentira verdadeira, mas está aí para quem quer enxergar. O quê é que as mulheres podem fazer então? Parece que vão precisar sujar a roupa e terem que reconhecer seus penduricalhos mais raros e preciosos imersos em brejos profundos.

Aninha dava continuidade ao seu choro copioso em horas intermináveis de auto-piedade. Sua irmã, Isabel, 24 pra 25, – que também não deixava de ser mais um número na lista das mendigas – tentava consolar a pobre maninha. Só que à medida em que se envolvia com o caso da irmã, mais se lembrava do Diogo, aquela figura disforme, rude e de fala estridente aos olhos da mãe, mas que fazia seu coração suspirar à cada sofreguidão de batidas descompassadas quando o via entrar pela casa. Parece que nada dá certo, nem com elas, nem com as amigas. É realmente o clube das titias carentes e desoladas, que sentiam-se meio que traídas caso alguma delas arrumasse um namorado. Parecia mais um pacto de abstinência sexual ou algo semelhante ao jejum da vó Filó.

Ao mesmo tempo cômico e melancólico, ora comovente, ora frustrante, essas mocinhas levavam a vida de uma forma um tanto quanto dramática ou ao menos digna de cuidados especiais. Elas tinham umas às outras assim como mães e filhas, um casamento em massa quase que em perfeita harmonia. Eram as mendigas do amor, batendo de porta em porta, à procura de um bom partido que pudesse oferecer o mínimo de atenção e carinho; que pudesse fazê-las mulheres, desejadas, nem que fosse preciso mentir, aumentar um pouco ou diminuir, dependendo do caso, seja lá o que for. Elas queriam é ser idolatradas, queriam alguém que fizesse aquelas velhas coisas de sempre, como dar flores com cartões apaixonados, abrir a porta do carro, imaginando aquele cara que sofresse de insônia preocupado com a prova final do semestre que ela fez sem estudar nada.

O detalhe da porta me fez lembrar o peão aspirante a namorado da Isabel. Logo no primeiro encontro, Carlos, que tinha ganho dois ingressos para o show do Amado Batista, resolveu convidá-la. Chegando em sua casa, como todo romântico irremediável, foi abrir a porta do seu fusquinha 72 para a princesinha e acabou tendo a infelicidade de arrancar a “bicha” num solavanco de dar medo. O vexame não podia ser pior. Levou um bom tempo para encontrarem uma corda lá no fundo do quintal, na casinha do Bartolomeu. Não parou por aí, veio o pai e a mãe da Isa pra tentar amarrar a porta, mas aquela geringonça não dava trégua. Pra aumentar a confusão, começou a juntar um monte de curiosos, daqueles que só dão palpite onde não são chamados e ainda pagam “sapo”. Só depois de terem jogado sal nos anfíbios penetras da vizinhança, é que finalmente conseguiram amarrar a porta. Essas cenas a gente nunca esquece, não é? Na época, tudo isso que aconteceu não teve a mínima importância para ela, pois o que interessava mesmo era estar bem colada com o seu amor. Tem gente que por exemplo não tem sequer um fusquinha sem porta pra andar e ainda assim é conhecido como avassalador de corações. Como o caso do Betinho, aquela paquera da Maiara, que chegava religiosamente toda segunda, quarta e sexta, depois da novela das oito com sua ferrari, aquela monarkona barra circular – pelo menos a cor lembrava uma ferrari. Era lei, a Maiara sempre voltava com a bunda toda marcada da garupa, mas nada era capaz de tirar o sorriso farto de seu rosto e o brilho ofuscante de seus olhos. Tocante!!!

Dá pra perceber que elas não ligavam muito para dinheiro ou beleza física, parece brincadeira, mas tudo que importavam mesmo era com o caráter do Holy. O quê? Holy, Wolly, Holly, Oli, Uoli, Uol? É, é isso mesmo. “Onde está o Holy?” Lembra do Holy? Pois é, o problema é que estão procurando o mito do bom caráter até hoje. Mas elas continuam acreditando porque sabem que esse não é apenas um mito. Tá certo que se parece com o Holy, vive sumindo no meio da multidão, mas que ele existe, existe. Não há dúvidas. Não me esqueço das terapias em grupo que costumavam fazer uma vez por semana na casa das duas irmãs inseparáveis, Aninha e Isabel. Convidavam também alguns amigos para fazerem parte da terapia, no intuito de não deixar o grupo tão desequilibrado, não que eles seja superiores pelo fato de terem nascido homens (mulheres, não me levem a mal), mas por simplismente entenderem melhor a cabeça dos marmanjos e de alguma forma poderem acrescentar alguns conselhos que liam escondido, em manuais de auto-ajuda. Era muito engraçado ver aquele monte de pré-adultos reunidos em prol do amor. Não podemos generalizar quando os chamamos de pré-adultos, porque tem uma exceção no meio do grupo, é a Lud, 33 anos de estradas bem vividas, a vovó da turma e uma espécie de colsuntora sentimental. Lud não era perfeita, assim como todos nós. Ela tinha seus dias de colapsos nervosos e uma vez ou outra trancava-se em sua toca por no mínimo uma semana. Aí então, quem corria atrás dela eram as filhinhas orfãs do amor.

O tempo segue o seu curso e a visão de homem para elas piora à cada choro desesperado de uma mendiga filiada. Estão perdendo as esperanças do homem ideal. Estão cansadas das batalhas árduas e sangrentas, das zilhões de vidas dilaceradas por essa espécie inescrupulosamente insensível. Essa imagem persegue seus sonhos aparentemente longínquos e quase utópicos. Mas não. Elas podem ser mendigas, porém nem tudo está perdido. A esperança continua sendo para elas a amiga mais fiel em tempos de maré baixa. Mesmo assim, ainda são de carne e osso, e apesar de tanta fé, de vez em quando chegam a esmorecer com tantas decepções que encontram pela frente. Como a Aninha, que me passou um e-mail contando que sentia-se como se estivesse em uma piscina com água até o nariz, sem forças e tampouco sabendo nadar, na ponta dos pés pra tentar respirar e com uma torneira enchendo de gota em gota.

As mendigas continuam... talvez, quem sabe...

*Créditos à Angela Ribeiro Neves, de onde deve ou não ter surgido a idéia desse romance brega baseado em fatos.


As mendigas do amor
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enviada por Elisandro Borges






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